Mea Auten Brasiliae Magnitudo

27.9.06

O poder dos juros

O afrouxamento monetário promovido pelo Copom já reduziu a taxa básica da economia nacional para 14,25% a.a., com vistas a chegar aos 13,75% ao final de 2006. Antes da última decisão, a ata do encontro anterior havia anunciado “maior parcimônia” nas decisões da autoridade monetária, e, para surpresa geral, ocorreu um corte de 50 pbs, contrariando a maioria das projeções mais modestas, 25 pbs. Ao final, sobressaíram os fracos índices de atividade econômica, combinados com o PIB medíocre do último trimestre. Provavelmente temeroso com o nível de expansão do Brasil, o comitê achou por bem imprimir um ritmo mais agressivo, visando reverter a constrangedora situação às vésperas do pleito presidencial. O governo acredita em um crescimento de 4% para este ano, o FMI aposta em 3,6%, mas o mercado financeiro não parece compactuar desse otimismo, e tem revisado suas expectativas para uma mediana de 3,2%, segundo o Relatório Focus. Ainda de acordo com estudos do FMI, o mundo crescerá 5,1% este ano, e a América Latina, 4,2%. Estaremos novamente abaixo da média mundial.

Vários têm sido os argumentos para explicar o crescimento pífio do Brasil, e todos eles de certa maneira estão interligados. O real valorizado estimula aumento das importações, e inibe exportações. A concorrência com produtos de fora desencoraja o empresário nacional a aumentar os investimentos na produção, já que parte da demanda interna é suprida pela forte concorrência dos importados. Pelo PIB do segundo trimestre, a variação em 12 meses das exportações de bens e serviços sofreu forte queda, encerrando negativa pela primeira vez em quase 3 anos, enquanto as importações permaneceram altas. Dentre os setores, a indústria apresentou o pior resultado. Se observarmos apenas a balança comercial, verificaremos que a pauta das exportações é fortemente concentrada em commodities. No acumulado de janeiro a julho deste ano, os produtos que puxam o superávit são minérios de ferro, soja, petróleo e açúcar. Observando-se a variação das exportações em 2005 para 2006, estão registrados os apuros do setor têxtil, moveleiro e de máquinas e ferramentas.

O problema é que os bons resultados, fortemente ancorados em commodities, podem sofrer solavancos. Há uma tendência de queda dos preços destes produtos no médio prazo. Até o momento, os preços elevados das commodities têm sido generosos com a economia brasileira, mas o mundo começa a dar claros sinais de desaceleração, puxada pelos Estados Unidos e sua cruzada no combate às pressões inflacionárias, provocadas – veja só – pelas próprias commodities, em especial o petróleo. Embora a expectativa aponte para um desaquecimento gradual e suave, seria interessante que o próximo governo detivesse uma estratégia objetiva de incentivo aos demais setores produtivos.

O juro baixo tem contribuído para o aumento da massa salarial e, consequentemente, para o consumo das famílias. O paradoxo que se observa, de um juro real baixo lado a lado com inflação controlada, mas com atividade industrial insípida, leva à conclusão de que existe limitação no poder dos juros em alavancar uma economia como a do Brasil. As elevadas despesas do governo, que resultam em mais impostos, inibem investimentos do setor privado. Como a carga tributária chegou ao limite do tolerável para o empresariado e o Estado não demonstra disposição em cortar gastos, a maior fatia do orçamento público fica comprometida, o que resulta em um montante muito aquém do necessário para os investimentos em infra-estrutura e de suporte às empresas. Os efeitos do câmbio forte, que estimula as importações, certamente seriam amenizados se a discussão em torno do juro fosse dividida com os problemas que estagnam o setor produtivo. O BC cumpre firmemente a sua tarefa de equacionar a demanda com a oferta, e exercer o controle das pressões inflacionárias. Também o Tesouro nacional vem trabalhando bem na redução e mudança do perfil da dívida. Contudo, ainda que a defasagem da incidência dos juros baixos na economia prove o contrário, o país precisa urgentemente de uma pauta de exportações mais diversificada, incluindo-se, aí, a ocorrência de produtos de maior valor agregado, de modo a diminuir nossa vulnerabilidade. Até mesmo o nosso mercado de capitais se ressente disso, pois é preciso que haja mais opções de empresas listadas na Bolsa, e que estas pertençam a segmentos mais diversificados. E que consigam, ainda, ser boas o suficiente para entrarem no Ibovespa e reduzirem também o peso das empresas de commodities no índice.

Artigo da Maxiplan publicado no Jornal da ACIJ, Setembro/2006


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21.9.06

Por muito menos...

Como explicar que Lula ainda esteja no poder? É culpa de um povo alienado? De uma oposição coxinha? De centrais sindicais e de estudantes comprados pelo presidente?... Na Tailândia, o exército, indignado com os atos de corrupção, nepotismo e autoritarismo - qualquer semelhança não é mera coincidência - de seu premier, ordenou golpe de estado, sob aprovação pública, já que os protestos duravam meses. A junta militar anunciou que nomeará um governo interino, que dirigirá o país por um ano até as eleições já anunciadas para outubro de 2007 (hmm, sei...). Na Hungria, por muito menos, uma onda de protestos tomou conta da capital Budapeste. Vazou uma gravação da qual o primeiro-ministro daquele país admitiu ter mentido aos eleitores sobre a situação econômica para ganhar as eleições. Foram 10 mil manifestantes pedindo a cabeça do cara, e até agora o saldo é de 52 feridos. No primeiro caso, obviamente não se defende a volta dos militares ao poder, apenas um exemplo da nossa estranha conivência...

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Crise política respinga na Bovespa

A Lehman Brothers, umas das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos, publicou o relatório abaixo, comentando a crise política e o temor que ela provocou nos investidores estrangeiros, justamente quando o pleito presidencial, até então completamente ignorado e já "precificado", tomou contornos que podem dar uma guinada nas expectativas até então sedimentadas pelo mercado. No cenário descrito, mesmo que Lula vença as eleições, correrá risco de sofrer processo de impeachment liderado pela oposição, o que causaria um intenso rebuliço no país. Estão aí as eleições presidenciais mexicanas para nos lembrar disso. Não se sabe ao certo como a população reagiria. A passividade até o momento diante do descalabro de um escândalo atrás do outro não produziu revolta ou colocou o povo nas ruas para protestar. Em outra hipótese, mesmo que Lula vença e não seja afastado, ele não mais conseguiria um diálogo com a oposição a fim de implementar as urgntíssimas reformas que são necessárias para tirar o Brasil da lanterna do crescimento latino-americano. O Ibovespa, hoje, fechou abaixo dos 35 mil pontos, distante do otimismo que almejava os 50 mil pontos até o final de 2006. Segue transcrição de parte do relatório mencionado:


Right now in congress, a Special Parliamentary Investigation or CPI is going on about a kickback scheme in medical equipment. And the investigation is uncovering evidence of guilt of many representatives and one senator who are implicated as well as Lula's former Health Minister Helio Costa. Earlier this week, however, a number of newspapers circulated information from a dossier with "proof" that PSDB Sao Paulo gubernatorial candidate Jose Serra and by implication PSDB presidential Geraldo Alckmin were involved. The information was quickly proved to be false and an immediate arrest was made of lawyer Gedimar Pereira Passos who allegedly paid (family) members of the Vedoin group to produce the dossier. The information came from the Vedoin group. Passos works for one of Lula's closest aides, Jorge Lorenzetti, and has strong links to Jose Dirceu. Also implicated was Oswaldo Bargas who is linked to PT President Ricardo Berzoini. Lorenzetti and Bargas had tried to sell the dossier to newspapers as witnessed by the written statement by Epoca magazine.


Lula's right-hand man, special advisor Freud Godoy, is suspected of allegedly originating the purchase of information. The informants from Vedoin also alleged that Berzoini knew about the meeting. Berzoini admitted to knowing about the meeting but not the content. The Lula government is trying to distance itself from the episode. This could be good for Alckmin's candidacy and increases the possibilities of a second round. But if Lula still wins, this is not good for medium-term reform as it is expected that the opposition will go for impeachment immediately after the election. Lula may have serious trouble getting even minimal reforms in his possible second term.

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18.9.06

Interlúdio


Tivesse eu os panejamentos bordados dos céus
Envoltos em luz de ouro e prata,
Os mantos azuis, sombrios e obscuros
Da noite, da luz e da meia-luz,
Eu estenderia esses mantos a teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas sonhos;
E estendi meus sonhos a teus pés;
Pisa com delicadeza, pois estás pisando sobre meus sonhos."

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(William Butler Yeats)
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"Eu li este fragmento há muito tempo. Finalmente, lembrei o suficiente para procurar no Google. Apesar do apelo cafona, eu ainda acho que é uma declaração muito bonita e sincera."

Este poema foi retirado do blog de um dos meus melhores amigos (
www.thejumpingbeans.blogspot.com/) , que eu não vejo há muito tempo. Quando chega a faculdade, vai cada um para o seu canto e fica apenas saudade dos velhos tempos. Nunca tinha lido sobre este fragmento, mas concordo com ele, na beleza e simplicidade inata das palavras. Lembrei-me de que este mesmo amigo participou de um programa de intercâmbio e ficou um ano morando nos EUA. Passou pela provação do Natal sem família ou os amigos nacionais. Lembro, ainda, que na época ele me escreveu um e-mail bastante melancólico, sobre como se sentia em relação à distância e ao verdadeiro significado do Natal. Quando ele retornou ao Brasil, eu fui visitá-lo e entreguei-lhe este e-mail, seis meses depois dele tê-lo mandado. Ele ficou surpreso, e confessou na época que aquilo fôra uma das coisas mais íntimas que ele já escrevera. Eu concordei, dizendo que era uma bela mensagem, mas talvez pudesse ter lhe dito o que ele escreveu no blog: "Cara, apesar do apelo cafona, eu ainda acho que é uma declaração muito bonita e sincera." Boas amizades sempre rendem boas lembranças.

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