Verdade...

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- Verdade pura! Nada mais difícil do que uma verdade, Emília.
- Bem sei - disse a boneca. Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar a idéia de que está falando a verdade pura.-
-Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com idéias tão filosóficas.
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- Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jeusus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: "Que é verdade?" ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta.
- Pois eu sei! - gritou Emília. Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.
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Dona Benta calou-se, a refletir naquela definição, e Emília, no maior assanhamento, correu em busca do Visconde de Sabugosa. Como não gostaria de escrever com a sua mãozinha, queria escrever com a mão do Visconde.-
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Monteiro Lobato, "Memórias da Emília" p. 4-5
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