Mea Auten Brasiliae Magnitudo

2.9.07

Verdade...


[...]

-
- Verdade pura! Nada mais difícil do que uma verdade, Emília.

- Bem sei - disse a boneca. Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar a idéia de que está falando a verdade pura.-
-
Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com idéias tão filosóficas.
-
- Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jeusus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: "Que é verdade?" ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta.

- Pois eu sei! - gritou Emília. Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.
-
Dona Benta calou-se, a refletir naquela definição, e Emília, no maior assanhamento, correu em busca do Visconde de Sabugosa. Como não gostaria de escrever com a sua mãozinha, queria escrever com a mão do Visconde.-

-
Monteiro Lobato, "Memórias da Emília" p. 4-5

Marcadores: