Mea Auten Brasiliae Magnitudo

11.4.07

Calvin & Haroldo, um clássico


Hoje saiu em A Notícia que haverá um relançamento das tiras de Calvin & Haroldo, um dos maiores clássicos dos quadrinhos (ou HQs, para os descolados). Tenho uma penca de coletâneas dessa dupla aqui em casa, e recomendo! Na verdade, sempre fui um aficcionado por HQs. Meu gosto por leitura apareceu com os gibis da Turma da Mônica e os da Disney, quando eu tinha uns 7, 8 anos. Dali para a coleção do Sítio do Picapau Amarelo, do Monteiro Lobato, foi um pulo.
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Gostava tanto, que passava horas no quarto trancado, sol de rachar lá fora e eu enfurnado, criando personagens próprios, ou muitas vezes simplesmente tentando copiar os meus heróis favoritos. Eu realmente pensava em ser desenhista quando crescesse, talvez chargista. Acabei perdendo um pouco da paciência, virtude essencial no ofício, por causa do nível de exigência para que o trabalho final corresponda às expectativas, não apenas do público, como do próprio autor, geralmente um perfeccionista incurável.
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Poucos levam as HQs como uma arte "séria", especialmente no Brasil. Pessoas lêem gibis para o público infantil e pensam que tudo se resume àquelas histórias propositadamente simples - ainda que sejam ótimas histórias infantis. Esquecem-se, ou não sabem que há muitos quadrinhos adultos tão bons - ou até melhores - quanto qualquer best-seller. Na maioria das livrarias brasileiras, os quadrinhos ficam escanteados e restritos a poucas estantes, e isto não acontece em países como a França, por exemplo. Em todas as livrarias pelas quais passeei por lá, sempre havia uma seção inteira de álbuns e livros em quadrinhos. Eram tantos títulos que eu me surpreendi que houvesse mercado para tantos artistas, a maioria deles, voltada para o público adulto. E não eram seções jogadas às moscas, sempre havia alguém ali, folheando as obras e admirando os traços caprichados dos artistas.
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Quadrinhos são um meio artístico maravilhoso, capaz de transformar uma boa história em um clássico inesquecível. Bill Watterson, criador de Calvin & Haroldo, declarou uma vez que "um grande texto salva uma arte chata melhor do que grandes desenhos salvam idéias chatas", ainda que quadrinhos sejam um meio visual. Eu concordo com ele. O ideal é sempre combinar o melhor dos dois (ótimo roteiro + ótima arte). Algumas das melhores obras de Asterix são assim. No entanto, algumas das melhores estórias que me vêm à cabeça não foram feitas por um "Michelangelo". Frank Miller ("Sin City","O Cavaleiro das Trevas") é um excelente exemplo disso.
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Calvin & Haroldo, no entanto, sublima. A tira é inovadora em muitos aspectos, visualmente falando. Watterson tinha verdadeiro tesão por arte, e testava todas as possibilidades criativas dentro do espaço reduzido, e cada vez mais limitado de uma tira diária publicada em jornais. Ele botava Calvin em situações onde ele podia alterar a perspectiva tridimensional, criava situações às quais desenhava como um cubista, mudava a perspectiva da luz ao inverso; resumindo, é um gênio. Mas realmente a sua criatividade para bolar os argumentos das histórias de Calvin é que é assombrosamente maravilhosa.
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Calvin não é pra crianças. É para adultos que um dia foram metade crianças do que é Calvin. Ele apronta todas e mais um pouco, e leva os pais, a professora e quem mais estiver por perto, às raias da loucura. É rebelde, detesta estudar e não consegue fazer cálculos elementares de matemática, mas, paradoxalmente, tem um vocabulário culto e vasto demais para um garoto de 6 anos. Ele chega ao ponto de criar gráficos com pesquisas de opinião sobre o desempenho do seu pai como chefe da família, e fala e filosofa com uma desenvoltura tal, que não fossem suas notas na escola, seria difícil de acreditar que não seja superdotado. Os próprios nomes dos personagens, Calvin e Hobbes (em inglês), remetem a dois pensadores clássicos. Talvez por isso os dois gostem tanto de filosofar sobre qualquer assunto que dê na telha. Curiosamente, você acaba aceitando, porque este é apenas um dos paradoxos da tira. Outro, por exemplo, é o seu tigre de pelúcia, Haroldo, que adquire vida apenas quando está sozinho ou com o Calvin. Seria fácil presumir que como produto da imaginação de Calvin, apenas ele o veja como um tigre vivo, mas Watterson às vezes os coloca em situações tão absurdas, que fica difícil de imaginar como Haroldo poderia ter participado ativamente da aventura. Calvin também não tem amigos além de Haroldo, mesmo frequentando reularmente -ainda que obrigado pelos seus pais - uma escola cheia de crianças. Haroldo, por sua vez, é o mais sarcástico e espirituoso da dupla, e as histórias mais hilariantes que me vêm à memória invariavelmente terminam com ele, finalizando com alguma "tirada" genial. Aliás, quadrinhos que realmente façam você gargalhar são raros, por isso, mais um ponto a favor dessa tira. Leia a história em que Calvin pede para Haroldo cortar-lhe o cabelo, ou aquela em que ele vai até o futuro buscar a lição de casa de si mesmo, porque está com preguiça de fazê-la no presente. Tudo isso em sua máquina do tempo de papelão, que muitas vezes vira um "transmodificador" ou "metamorfoseador".
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Apesar da avassaladora popularidade, Bill Watterson nunca licenciou os personagens, mesmo sob pressão do sindycate onde trabalhava. Isto porque acreditava - e ainda acredita - que os personagens perderiam a integridade e a honestidade de suas reflexões e mensagens, caso aparecessem estampados em canecas, cartões de aniversário. Pior ainda se a questão da realidade de Haroldo fosse decidida por um fabricante de bichos de pelúcia. Nosso amigo Bill poderia ter ficado rico, mas não o quis, e isto, por si só, torna esta obra-prima ainda mais relevante. Por fim, eu queria terminar este textículo com uma frase dita pelo nosso maior desenhista de HQs, Maurício de Sousa, a respeito de Calvin & Haroldo. Revirei a Internet atrás dessa frase, tenho quase certeza de que foi publicada n´O Estado de São Paulo, mas não a encontrei. De qualquer maneira, parte da declaração nunca me saiu da cachola: "Maurício: '..o Calvin me deixa triste, porque não fui eu quem o criou'..."

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9.4.07

Fábula dos Dois Leões


Acho que todo estudante que completou o ensino básico conheceu Stanislaw Ponte Preta. Dei uma sapeada em uma coletânea de textos dele, e lembrei que vários foram utilizados nos livros de gramática que o colégio utilizava. Também por acaso, achei um texto muito bom, e infelizmente atual, considerando que o autor o escreveu nos anos 60. Qualquer semelhança não é, definitivamente, mer(d)a coincidência...
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Fábula dos Dois Leões
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)
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Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite.
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Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.
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Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão.
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Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha: — Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir arrego, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você... vá, diz como foi.
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O outro leão então explicou: — Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
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— E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?
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— Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam.
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Texto extraído do livro “Primo Altamirando e Elas”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1961, pág. 153.

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8.4.07

Páscoa

Páscoa, a celebração da ressurreição de Jesus, quando ele retornou para incitar seus principais seguidores a espalhar a sua mensagem. Nem sei porque decidi entrar nesse assunto, vai ver é falta de assunto. Não gosto de tratar de temas religiosos no blog. Mas como ontem passou "A Paixão de Cristo" do Mel Gibson, pude relembrar o quanto repudiei - e a ainda repudio - a imagem do Cristo sendo açoitado e executado na cruz. Jamais permitiria que em minha casa houvesse uma imagem dele crucificado. Na verdade, acho bizarro que o símbolo do Cristianismo seja a cruz, um instrumento de morte - quando Jesus sempre pregou Vida - e símbolo do poder de um povo dominador (os romanos) sobre o outro, dominado (os judeus). E se fosse o contrário? E se o Império Romano tivesse suplantado o Cristianismo através da crucificação em massa, qual seria o símbolo de uma suposta religião ocidental politeísta, baseada em deuses greco-romanos como Júpiter, Plutão, Hera, Atena e Afrodite?
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Sei lá, prefiro acreditar que o seu maior legado foram o seu exemplo e suas palavras, não seus milagres - dentre eles a ressurreição. Sua mensagem revolucionou o pensamento, no campo da ética e da moral. Acredito que ele nunca quis ser visto como um mártir, talvez tivesse planos de estender sua obra em uma existência mais longa, quando foi interrompido. Seu exemplo não está na forma como encarou a morte, trágica e grandiloqüente demais para um espírito tão humilde. Não, a sua grandiosidade estava no exemplo de como viveu... na forma como tratou as pessoas... no amor desmensurado em acolher doentes e necessitados... na misericórdia permeada de gentileza, para aqueles que buscavam alívio ao sofrimento... na alegria em repartir tudo que pudesse fazer progredir, fosse materialmente, ou pela sabedoria das palavras...na fé e no otimismo em relação ao ser humano... E uma lição tão preciosa, mas esquecida hoje em dia: o desapego às coisas materiais em prol de uma comunhão universal, cada vez mais essencial à nossa própria sobrevivência.
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Dificilmente Jesus voltaria novamente à Terra. Seu legado persiste há séculos. Pelo que vejo, ele prefere despachar, volta e meia, pessoas especiais, que nos façam lembrar dos seus ensinamentos. Para minha felicidade, conheço, de perto, pessoas que me ensinam ou relembram muitas dessas lições... de maneira repaginada, adaptada aos novos tempos, claro. Mas no fundo, a essência é a mesma. O mais curioso é que muitas vezes, elas nem se apercebem... Talvez porque, muito mais do que grandes aventuras ou palavras vazias, é o exemplo delas, nas pequenas coisas do dia-a-dia, que ao final de tudo, se sobrepõe. Imagino que a energia tão boa que elas transmitem seja uma fagulha, se comparada àquela experimentada na presença do próprio Cristo. Por que, então, eu precisaria imaginá-las sofrendo, pregadas em uma cruz?
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A todos, uma Páscoa de muito otimismo e fé em dias melhores!

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Knut E Uma Verdade Inconveniente

Um fato curioso: o filhote de urso polar Knut, do zoológico de Berlim, rejeitado pela sua mãe, ganhou fama depois que grupos ativistas pediram sua morte, argumentando que seria melhor o sacrifício a mantê-lo em cativeiro, sendo cuidado por humanos. Bem, a polêmica rendeu. As fotos do bichinho ajudam e circularam pelo mundo todo. As filas se formam para vê-lo, e por consequência, as ações do Zoologischer Garten Berlin AG triplicaram de valor em uma semana. Knut é o primeiro animal do zôo a ser registrado como marca, e a febre é tanta, que já foram criadas algumas músicas em sua homenagem na Alemanha, além de guloseimas e - óbvio - brinquedos de pelúcia. No G1 é possível ouvir as canções e ver as fotos. Além disso, o urso será garoto-propaganda de uma conferência da ONU sobre espécies ameaçadas.
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Curiosamente, os ursos também estão na capa da revista Veja dessa semana, em uma reportagem sobre o degelo do Ártico, habitat natural da espécie. Simplesmente não entendo porque o mundo ainda não entrou em estado de alerta diante da gravidade dos fatos. As pessoas parecem preferir ignorar a ameaça real e concreta que pousa sobre o nosso planeta doente. É praticamente certo que o aquecimento global vai mudar para sempre as nossas vidas - pra pior, é claro - mas não se vê pessoas discutindo, parece que conversar sobre ecologia é brega, bodão, ou "apocalíptico" demais...

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